Traídos e Atraídos: segredos, paixões e redenção no romance de Lillo Medeiros

Sumário

Em Traídos e Atraídos, Lillo Medeiros constrói um romance de entretenimento marcado por relações intensas, segredos familiares e revelações capazes de mudar destinos. A obra aborda temas como o amor proibido, a superação da perda, a busca pela verdade e a força dos laços familiares, mostrando que, mesmo diante das maiores adversidades, a capacidade de amar e perdoar é essencial para a reconstrução da vida.

Nesta entrevista ao blog da Editora Viseu, o autor fala sobre sua trajetória literária, o processo criativo por trás do livro, suas inspirações e os desafios de escrever uma história atravessada por paixões, crimes, redenção e reconciliação.

Para começar, poderia nos contar um pouco sobre você e sua jornada como autor?

A minha veia literária começou a dar sinais de vida já na juventude. Comecei escrevendo artigos para o tabloide do Colégio D. Pedro II, impresso em mimeógrafo a álcool. Mais tarde, fui redator do Jornal da União Blumenauense de Estudantes e depois auxiliar de redação do jornal A Nação, onde pude conhecer Assis Chateaubriand.

Já formado em Direito e casado, dediquei-me ao estudo da minha primeira profissão e escrevi Direitos e Obrigações do Representante Comercial (Editora Juruá). Este primeiro livro deu origem a outro: Comentários ao Código de Ética do Representante Comercial. O terceiro livro foi voltado para a fé: Vígolo, o Caminho de Santa Paulina.

Depois de escrever e publicar em jornais locais, a Universidade do Sul de Santa Catarina resolveu publicar uma coletânea das minhas crônicas jurídicas, que, na verdade, eram uma ironia ao comando da Justiça, mas sempre embasadas em casos reais; por isso, o livro foi chamado de Causos Jurídicos. Quando escrevi Lilla, um livro para quem gosta de cachorros, relatei as façanhas de uma cachorrinha. Neste livro, brinquei dizendo que apenas o digitei, pois a história me fora narrada pela cachorrinha Lilla, e por isso todas as palavras foram escritas numa visão canina do mundo e na primeira pessoa.

A minha transformação para romancista foi casual, pois eu pretendia apenas escrever uma crônica sobre um dos casos em que advoguei, que tratava de um naufrágio criminoso. Em respeito ao sigilo profissional, troquei os nomes dos envolvidos e até o local, transportando o fato para o litoral norte de Portugal. Depois de horas de escrita, fui conferir o texto para uma prévia avaliação e me assustei, pois não daria para ser uma crônica: já somavam 39 páginas em tamanho A4.

A Célia, minha amada, não se conformou com a minha decepção e, depois de avaliar o resultado das tantas horas em frente ao computador, que eu dizia terem sido perdidas, sentenciou: “Você começou um romance que pode dar um bom livro! Agora continue!”. Dali para frente, entrei de cabeça em uma história de amor e poucas horas por dia me afastava do computador. O resultado foi Rosa e Seus Amores, publicado pela Editora Viseu e depois contemplado com o terceiro lugar no Prêmio Ecos da Literatura 2024.

A experiência de escrever um romance me empolgou e, novamente, mergulhei em uma nova história, cujo resultado foi Traídos e Atraídos, recentemente publicado pela Editora Viseu, agora nas versões física, e-book e audiobook.

O que o inspirou a escrever o livro?

Depois de escrever dois livros técnico-jurídicos, um sobre fé e mais dois de crônicas, aventurei-me em um romance que resultou em Rosa e Seus Amores. Ao escrever um romance, senti um envolvimento emocional que realmente fez a diferença. E, depois da projeção do primeiro romance, mergulhei de cabeça em Mariana, cujo título, ao longo da criação, passou para Traídos e Atraídos.

Quanto à inspiração, posso dizer que, depois de ter em mente o início de uma história, ela flui linha após linha. É um processo natural e gratificante, pois escrever um romance não é como escrever crônicas, já que exige uma continuidade constante. É uma imersão na própria mente.

Como a sua experiência pessoal se reflete nos temas abordados no livro?

Como a trama flui de forma constante, cada livro é uma experiência excepcional, pois o autor sente-se dentro da sua própria história e passa a inserir nela tópicos do seu dia a dia.

Pode nos contar um pouco sobre o processo criativo por trás deste livro?

Ao escrever Traídos e Atraídos, a carga emocional foi grande. Pela complexidade do desenrolar da trama, houve momentos em que eu mesmo derramei lágrimas no teclado, a ponto de ser zoado por minha esposa. É estranho imaginar como uma história pode emocionar o próprio autor, mas acontece.

Quais foram suas principais referências criativas para escrever o livro?

Brinco dizendo que um romancista, enquanto envolvido com sua história, não dorme; apenas dá uma relaxadinha, pois às vezes uma ideia surge até entre um cochilo e outro. Verdade: às vezes a inspiração vem até através de sonhos; outras aparecem na mente do autor como um registro de algo que ele assistiu, presenciou ou mesmo ouviu. Lógico que essas inspirações não devem resultar em plágio, pois apenas complementam a inventividade.

Existe algum trecho do livro que você gostaria de citar?

Nas entrevistas que dou, sempre me esquivo de dar algum spoiler, mas há um trecho do livro que posso adiantar, afinal o encontro entre eles, depois de tanto tempo, é representado na capa:

“No gigante aeroporto de Heathrow, o voo de Mariana havia sido anunciado e ela, depois da alfândega, dirigia-se para a aeronave num daqueles largos corredores separados por uma parede de vidro, de onde se podia ver, do outro lado, as pessoas que acabaram de aterrissar. Ela, com a mente focada nas ideias que aplicaria no projeto recém-contratado, viu do outro lado da transparência, vindo em sentido contrário, uma pessoa que lhe era conhecida e que já ocupara o centro de seu coração.

Ao reconhecer Gustavo, ela parou. Ele vinha apressado e, assim que a viu, cessou a caminhada, deixando no chão a maleta que trazia nas mãos. Ficaram alguns segundos parados, um diante

do outro, apenas separados pela parede de vidro, olhando-se nos olhos sem conseguir dizer uma só palavra. Os corações dos dois aumentaram os batimentos e as bochechas dos rostos ficaram quase incandescentes, mas logo ela acelerou o passo para chegar ao túnel que ligava o aeroporto à aeronave.

Antes de entrar no finger, ela não resistiu: olhou para trás e pôde ver Gustavo ainda estático, com o braço direito levantado e a mão espalmada na direção dela.

No voo de retorno, a sua cabeça parecia ter entrado em um redemoinho — o que Gustavo faria em Londres? Teria, como eu, refeito a sua vida amorosa? Estaria residindo na Europa?

Estava tão absorta que quase não ouviu quando a comissária de bordo lhe ofereceu café. Aceitou a bebida e voltou a dizer para si mesma: a vida é feita de etapas e a minha com Gustavo está no passado. Espero que ele esteja bem, assim como eu consegui; o meu irmão também merece um novo amor. Tenho que olhar pelo lado bom. E se eu tivesse cruzado com ele no mesmo lugar, porém quando eu estivesse chegando em Londres e não saindo? Não teria cabeça para sair do aeroporto e ir para a reunião ou, se tivesse ido, não teria capacidade de sustentar os argumentos que desenvolvi para fechar o contrato. Ele está no passado e pronto! Vou seguir a minha vida sem ele, como fiz até agora.” (páginas 115/116)

Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao escrever o livro?

Em algumas oficinas literárias das quais participei, constatei que quase todos os romancistas têm momentos de bloqueio criativo, que é a dificuldade de gerar conteúdo. Parece que a inspiração sumiu. Embora muito se tenha debatido e escrito sobre esse embaraço literário, creio que não exista uma regra para puxar de volta a centelha da criatividade. Cada escritor desenvolve a sua própria norma.

Entendo que esse bloqueio é um aviso da própria mente de que algo pode estar se degringolando, como se o trem da criação estivesse prestes a descarrilar. Fico atento a esses avisos, mas percebi que, para mim, não adianta parar o trabalho; o melhor é mudar o foco e aproveitar para ler o que já foi escrito ou rever o arquivo das personagens.

Sempre que inicio um livro, crio um arquivo paralelo em uma tabela do Word, com os nomes e características das personagens, para não incorrer no erro comum de descrevê-las de forma diferente ao longo da obra. Essa pausa, na maior parte das vezes, resolve os bloqueios literários.

Como você espera que seu livro impacte os leitores?

Impactar o leitor é o que todo escritor deseja. Por isso, neste livro, logo no início criei uma grande revelação que muda o rumo de toda a história. Em alguns momentos, também precisei eliminar personagens por meio de homicídio, acidente, entre outros acontecimentos. Acredito que os imprevistos prendem o leitor.

Existe uma mensagem principal que você deseja transmitir?

A mensagem central é a de que, mesmo diante das maiores adversidades e revelações chocantes, a capacidade de amar e perdoar é fundamental para a reconstrução da vida e a busca pela felicidade, deixando que o acaso interfira no passado, modificando o futuro. Afinal, como consta na epígrafe: “O acaso é a vontade de Deus quando ele passeia incógnito” (frase inspirada em Théophile Gautier).

Há algum personagem ou história no livro que você considere particularmente significativo?

Sim. Desde o início, a personagem principal é Mariana, tanto que este foi o nome provisório do livro, até que surgiu, no decorrer da trama, a expressão “traídos e atraídos”. Na história, vê-se a transformação da menina em mulher, com atitudes fortes e decisivas.

Como você acredita que a literatura pode contribuir para a vida dos leitores?

Não há dúvidas de que a literatura pode interferir e contribuir para a vida dos leitores, pois, ao mergulhar em histórias de diferentes culturas, o leitor adquire um conhecimento maior sobre a condição humana. É permitido a ele ver o mundo pelos olhos dos outros, o que fatalmente o leva a refletir sobre a própria vida.

Além da literatura, quais são suas fontes de inspiração para escrever?

No meu caso, a primeira inspiração precisa ser um esboço de uma história e, depois, deixá-la fluir. Nesse processo, involuntariamente, acabo incluindo experiências pessoais, fatos que me foram narrados, partes de filmes, temas de interesse pessoal, histórias reais, notícias, fofocas e fatos históricos, que sempre estão presentes nas minhas obras. Toda essa inspiração, no entanto, deve ser bem romanceada para ser inserida no contexto.

Quais são seus planos futuros como escritor? Há novos projetos em desenvolvimento?

Um escritor deve ter uma mente fervente, sempre pensando em novos projetos. No meu caso, como não sou famoso e, consequentemente, não possuo uma equipe de marketing, vivo um limbo entre uma obra e outra, tempo dedicado à divulgação do último livro. Confesso que, mesmo tendo raízes em vendas — minha primeira profissão —, não sei vender os meus próprios livros.

Durante esse interregno, como o que vivo agora, não deixo de registrar anotações que poderão ser exploradas futuramente.

Que conselho você daria para alguém que está começando a escrever seu primeiro livro?

Amigo leitor, se você já começou a escrever o seu primeiro livro, já ultrapassou a fase da inspiração inicial. Em tese, você já tem o início de uma história. Veja como pode inserir nela fatos vivenciados por você ou pelo cotidiano complexo que gira ao seu redor.

Se a sua história tem personagens, elabore uma tabela no Word e descreva-os da forma mais completa possível, até mesmo com seus trejeitos. Assim, quando precisar, poderá consultar esse arquivo para não cometer erros. A perfeição deve ser buscada desde o início, mas, como nunca seremos perfeitos, tente chegar o mais perto dela.

Como a nossa gramática é uma das mais complicadas do mundo, sobretudo por estar cheia de regras e exceções, revise pontos básicos como concordância, uso dos hífens, dos porquês e da crase. Escritores, em geral, não são bons revisores de suas próprias obras, pois tendem a não enxergar os próprios erros, mas tente não dar muito trabalho aos revisores.

Eu, por exemplo, trabalho com duas telas simultaneamente, sendo que uma delas está sempre com um dicionário aberto. No final, quando achar que o seu livro está pronto, antes de entregá-lo ao revisor, agente literário ou editor, deixe-o “descansar” por algum tempo e depois releia todo o material. Sua mente já não terá uma memória tão apurada, e você poderá encontrar erros que inicialmente não viu.

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