Núbia Oliveira
Entre poesias e resistência, nasceu, em 20 de agosto de 1969, Núbia Oliveira da Silva, na cidade de Itaperuna, Rio de Janeiro. Ela recebeu esse nome como homenagem de seu pai para a cantora Núbia Lafayette, uma de suas favoritas. Desde a infância, sua vida foi marcada pela violência doméstica vivida por sua mãe. Essa realidade forçou Núbia e sua irmã, Lívia Oliveira da Silva, a buscarem refúgio na casa dos avós em Carangola, Minas Gerais. Seu avô, um português devoto da umbanda e curandeiro, desempenhou um papel fundamental em sua criação, transmitindo ensinamentos que ligavam a espiritualidade à cura e à resistência. Paralelamente, o pai de Núbia praticava rituais de São Cipriano (Capa Preta), o que inseriu a umbanda como algo que levou a desinformada sociedade a se opor contra a família, em um contexto de marginalização e intolerância religiosa.
Núbia vivenciou a exclusão de forma direta e implacável. A cor de sua pele, sua origem e a religião de sua família foram motivos constantes para o racismo estrutural e a perseguição religiosa. Esses ataques não só feriram, mas também forjaram sua determinação em cicatrizes para resistir e encontrar uma voz para lutar contra a injustiça. Ela é um testemunho da brutalidade do racismo em todas suas formas. No entanto sua trajetória também é uma celebração das forças de seus antepassados. Entre a sombra da exclusão e a luz da resistência, Núbia transformou suas experiências em um legado. Sua história é um grito de resiliência e inspiração, mostrando que, mesmo diante da opressão, é possível lutar, criar e transformar a dor em um poderoso chamado. A cura, a valorização das raízes, a dignidade inegociável de ser quem se é.
Entretanto, justamente por suas provações, desenvolveu-se dentro dela uma via extremamente artística e criativa. Por meio do único momento feliz com o pai, ela foi iniciada na arte do barro ainda criança, em que ela já demonstrava seus dons indo à escolinha de apoio estadual, localizada em uma comunidade carente da sua cidade. Na volta de suas aulas, sempre trazia um pedaço de argila para exercitar aquela turbulenta mente e materializar os seus sonhos e fantasias infantis em um pedaço de terra.
Núbia somente voltou a se dedicar à arte e a produzir novas peças depois da virada do milênio, descobrindo-se como escultora e artista plástica. Após alguns anos no Rio, voltou para Minas Gerais incorporando técnicas do papel machê num reato dos laços da memória: uma junção da arte com a história da resistência negra e feminina contra a opressão, violência e a favor da libertação e do direito. Tal inspiração e conexão com a terra a fez se voltar para a madeira, para a forma dela, para o que, em seus olhos, ela representa, além de criar a partir da essência um realce, revelar o que há por trás da casca e dar a ela seu verdadeiro significado.