Como Escrever um Poema: Do Olhar Poético à Obra Final

A poesia é uma das mais antigas formas de arte da humanidade. Antes da escrita, já existiam os cantos e os versos recitados em rituais, usados para transmitir memórias e emoções. Na Grécia Antiga, a poesia era inseparável da música e da dança. No Japão, o haicai nasceu da contemplação da natureza. No Brasil, nossa tradição poética é rica, passando pelas trovas coloniais, pelos sonetos de Gregório de Matos, pelo lirismo de Castro Alves e pela liberdade de Manuel Bandeira. Poetas como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade nos mostraram que a poesia pode ter múltiplas vozes e pode surgir das coisas mais simples do dia a dia. Escrever um poema é, acima de tudo, traduzir em palavras aquilo que muitas vezes não conseguimos expressar. O que importa não é a forma em si, mas a capacidade de transformar sentimentos em linguagem. Poemas de amor, por exemplo, são a prova de como a emoção mais universal pode ganhar uma infinidade de formas. Neste guia, vamos explorar as bases da escrita poética, desde a distinção entre poesia e poema até as técnicas essenciais, com exercícios práticos para te ajudar a dar os primeiros passos. Técnicas e Primeiros Passos Poesia e Poema: Uma Distinção Essencial Você sabe a diferença? Fernando Pessoa nos ajuda a entender essa distinção com sua famosa frase: “A poesia é a surpresa de haver coisas que existem, e de como existem.” Poesia é a experiência estética, o sentimento que nos toca ao ver um pôr do sol, ao ouvir uma canção ou ao perceber a beleza em algo inesperado. A poesia não precisa ser escrita; ela está na vivência, na percepção, no instante de assombro ou de melancolia. Poema é a forma escrita que materializa a poesia. Ele organiza palavras em versos e estrofes, cria ritmo e usa recursos de linguagem para dar corpo àquele sentimento. Nem toda poesia vira poema, mas todo poema deve carregar poesia em sua essência. Exemplo Prático: Relato: “Hoje tomei café na varanda.” Poema: “O café fumegava na varanda / como uma manhã desperta.” O poema não apenas informa, ele cria uma imagem e desperta um sentimento. Ele convida o leitor a sentir a cena, não apenas a conhecê-la. Os Elementos da Escrita Poética Para transformar a poesia em poema, usamos algumas ferramentas. a) O Ritmo: A Música Escondida nas Palavras O ritmo é a cadência do poema, o que dá musicalidade à leitura. Mesmo em poemas sem rima, o ritmo existe. Ele pode vir da métrica, da repetição de palavras ou da quebra dos versos. A métrica, a contagem de sílabas poéticas, é o esqueleto do poema. Métrica Tradicional: A contagem de sílabas poéticas cria estruturas como a redondilha (7 ou 5 sílabas) e o decassílabo (10 sílabas), que conferem um tom popular ou solene. A redondilha maior, por exemplo, é a base da poesia de cordel, tornando-a acessível e fácil de memorizar. O decassílabo, por sua vez, é a medida dos grandes sonetos clássicos, como os de Camões. Exemplo: Compare a frase “A chuva cai no telhado escuro” com a quebra em versos: “A chuva cai / no telhado escuro.” A quebra cria uma pausa e um novo ritmo, mudando a forma como a frase é sentida. b) A Musicalidade: Rima, Aliteração e Assonância A música da poesia não depende apenas do ritmo, mas também dos sons. Rima: A repetição de sons no final dos versos. Ela pode ser rica (palavras de classes gramaticais diferentes), pobre (mesma classe gramatical) ou rara (difícil de encontrar). A rima conecta os versos e reforça a musicalidade. Aliteração: A repetição de sons consonantais. Em “Vozes veladas, veludosas vozes…” de Cruz e Sousa, o som do “v” cria uma sensação de sussurro. Assonância: A repetição de sons vocálicos. É uma melodia sutil que pode dar um tom de melancolia ou alegria. Essas ferramentas sonoras são como os instrumentos de uma orquestra. O poeta escolhe quais usar para criar a melodia que deseja. c) Imagem e Metáfora: Mostre, Não Diga A força da poesia está em evocar sentimentos e ideias sem ser literal. Em vez de explicar, o poeta mostra por meio de imagens e figuras de linguagem. Metáfora: É a comparação implícita. Quando Drummond diz “No meio do caminho tinha uma pedra”, a pedra não é só um objeto, é uma metáfora para os obstáculos da vida. A metáfora é o coração da linguagem poética. Metonímia: Substitui um termo por outro para criar uma relação de proximidade. Por exemplo: “Li Machado de Assis” (o autor pela obra), ou “O Brasil foi às ruas” (o país pela população). Sinestesia: Mistura os sentidos, criando uma experiência sensorial rica. Ex: “um cheiro doce” (paladar com olfato) ou “um grito colorido” (audição com visão). Exercício Prático: Escolha um sentimento (alegria, medo, saudade) e transforme-o em uma imagem. Direto: “Estou com saudade.” Em imagem: “Na parede, o retrato me olha sem voz.” Formas de Poema: O Molde da Criação Ao longo da história, poetas criaram diferentes formas. Conhecê-las é como ter uma caixa de ferramentas. Soneto: Um poema de 14 versos, geralmente decassílabos. Ideal para desenvolver uma ideia em três momentos (apresentação, desenvolvimento e conclusão). Poetas como Camões e Bilac foram mestres nessa forma, usando-a para temas como o amor, a natureza e a crítica social. Haicai: De origem japonesa, tem 3 versos curtos (5, 7 e 5 sílabas). É perfeito para capturar um instante, quase como uma fotografia poética, unindo a natureza e a emoção em um espaço mínimo de palavras. Verso Livre: Rompe com as regras de métrica e rima. Manuel Bandeira foi um dos que libertaram a poesia brasileira com essa forma, valorizando a voz pessoal e a espontaneidade. O verso livre permite uma liberdade de expressão que se aproxima da fala cotidiana, tornando a poesia mais direta e pessoal. Outras Formas: Ode: Poema de celebração ou louvor. Elegia: Poema de dor ou luto, usado para falar de perdas. Trova: Uma estrofe de quatro versos, geralmente em redondilha. A Temática: De Onde Vêm as Ideias? Manuel Bandeira rompeu com o “lirismo

Um pouco de fauna em versos: o processo criativo de A.R. Santos

Livro um pouco de fauna em versos

Na entrevista a seguir, o autor A. R. Santos compartilha sua experiência como escritor e os detalhes por trás da criação de seu livro de poesia “Um Pouco de Fauna em Versos”. Com uma abordagem leve e divertida, o autor transforma a natureza em poesia, criando uma obra que encanta leitores de todas as idades. Assim, ele nos conduz entre as trilhas da magia, de forma criativa e surpreendente. O autor revela que é apaixonado por contar histórias desde jovem e reflete sobre seu processo criativo, suas influências literárias e como transformou a fauna em poesia, com um objetivo claro: divertir e encantar leitores de todas as idades e perfis. 1 – Como foi início da sua carreira de autor e como surgiu a ideia de publicar seu primeiro livro de poesias? A.R. Santos: Eu escrevo desde menino. Um dia, ganhei um livro de presente da minha irmã. Disse a ela que não era bom e que eu era capaz de escrever um romance muito melhor. Ela respondeu – Não duvido, mas quero ver. Assim nasceu meu primeiro romance. Eu escrevo contos, crônicas, romances e sátiras. Quando tinha trinta poesias, eu pensei: Deus! Se eu continuar escrevendo, isso vai dar um livro. 2 – Você mencionou que escreve romances, contos, crônicas e sátiras. Para você, como escrever em prosa se diferencia de escrever em versos? A.R. Santos: No texto tenho total liberdade. Na poesia, vem o cuidado com a rima, se tiver, o cuidado com a métrica. Eu particularmente me preocupo até com a harmonização visual, ou seja, mesmo sem ler, deve ser algo agradável de ver. 3 – Como você lida com bloqueios criativos ou momentos de dúvida durante o processo de escrita?  A.R. Santos: Eu escrevo quando quero sobre o que quero, portanto, não encontro muitas dificuldades. Se necessário, paro vou fazer alguma coisa como tocar violão, ver um filme, lidar na horta. Quando retorno ao texto está tudo claro. 4 – Para você, a escrita é mais inspiração ou transpiração? A.R. Santos: Inspiração. Para mim, a transpiração vem na hora de aparar as arestas, lapidar o texto. 5 – Sua poesia tem um aspecto que lembra muito as brincadeiras de adivinha e o que é o que é, você gostava dessas brincadeiras quando criança? Isso influenciou sua escrita? A.R. Santos: Sim, gostava e gosto. Se teve influência na criação das poesias, foi de maneira inconsciente. Escrevi como as ideias se apresentavam para mim sem premeditação. 6 – Este será seu primeiro livro publicado? Se sim, como está sendo o processo? A.R. Santos: Não, em 2007 eu publiquei um romance por uma editora do Rio de Janeiro. Quanto ao processo atual, sinto que estou tratando com profissionais altamente gabaritados e comprometidos. 7 – Para você, qual é o principal desafio que os autores enfrentam na atualidade para ter sucesso na carreira? A.R. Santos: Essa é fácil: transformar o livro em um produto comercial de sucesso. 8 – Como você lida com rejeições ou críticas negativas durante sua jornada como escritor e que conselhos daria para escritores aspirantes?  A.R. Santos: Não me preocupo. Aprendi que nada pode abalar um trabalho sério. Feito com organização e método. Se a crítica ficar pesada, eu penso: “falem bem ou mal, mas falem de mim”, pois “Enquanto os cães ladram, a caravana passa”. Então, eu diria para um escritor iniciante que ele confie no seu taco, que vá em frente, o mundo é seu. 9 – Poderia citar algumas das poesias que você considera que melhor representam sua escrita e o tema da obra? A poesia sobre o elefante me reportou aos filmes, aos gibis e ao livro “Tarzan na selva” de Edgar Rice Burroghs. Com essa base de conhecimentos sobre esse animal. Não levei dez minutos para compor a poesia. A sacada de misturar Pelé, Neymar e piracema na poesia sobre o peixe. Quando a li com calma pensei: Deus, como é que eu fiz isso? A poesia sobre o condor, que alegria quando minha irmã disse: – muito boa. Também destaco a poesia sobre o cavalo. Quando a li, senti alguma coisa de mágico, a partir daí as poesias ganharam uma importância inimaginável para mim. 10 – Quais foram suas principais referências para escrever o livro? A.R. Santos: Rubem Braga, Fernando Sabino, Vinícius, Mario Quintana. Creio que estes e outros autores estiveram comigo, ainda que de forma inconsciente. 11 – Pode nos contar um pouco sobre o processo criativo por trás deste livro? A.R. Santos: Eu comecei a escrever para passar o tempo, me divertir sem compromisso ou preocupação. A partir dos primeiros versos, eu já sabia o que fazer. Então, foi só pesquisar todas as informações que eu precisava para compor as poesias. 12 – Como a sua experiência pessoal se reflete nos temas abordados? A.R. Santos: Eu sempre soube da importância dos animais no universo literário. Pessoalmente, o meu gosto pelos detalhes e a pesquisa refinada. 13 – Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao escrever o livro? A.R. Santos: Não houve grandes desafios. Eu sabia como começar e terminar. Repito, eu me diverti muito fazendo isso. 14 – Como você espera que seu livro impacte os leitores? Existe uma mensagem principal que você deseja transmitir? A.R. Santos: Embora algumas pessoas digam que o livro é didático, o meu objetivo é divertir. “Um pouco da fauna em versos” pode ser lido por todos. Não importa  o grau de escolaridade, a faixa etária ou a classe social dessas pessoas. 15 – Como você acredita que a Literatura pode contribuir para a vida dos leitores? A.R. Santos: A literatura instrui, informa, diverte. E de alguma forma nos conecta em imaginação com o passado, o presente e o futuro. Adquira o livro “Um pouco de fauna em versos” na loja oficial da Editora Viseu na Amazon!

Qual a diferença entre poema e poesia?

Poema ou poesia? Descubra a diferença!

Quando se fala de literatura, existem algumas questões sempre presentes. Uma das maiores entre elas está na poesia, frequentemente confundida com o poema. A proximidade entre essas palavras causa muitas confusões. Afinal, realmente existe uma diferença entre poema e poesia? Qual é essa diferença, exatamente? Neste artigo, responderemos essas e outras dúvidas sobre a escrita poética, abordando as diferenças, semelhanças, características, significados e exemplos desses dois termos. Fique com a gente e entenda de uma vez por todas a diferença entre poema e poesia!   Poema x poesia As palavras poema e poesia não são trocadas com tanta frequência sem razão: suas origens e significados são muito próximos entre si. Tanto poema quanto poesia têm origem do grego poiein, que significa fazer, criar. Apesar disso, já na etimologia temos diferenças: poema vem de poíema, o que se faz, uma criação; já poesia tem raiz em poíesis, que significa a produção, o processo de criar. Hoje em dia, esses termos têm os seguintes significados: Poema: texto literário organizado em versos e estrofes, podendo ou não conter rima e métrica; Poesia: expressão artística que busca provocar sentimentos, englobando palavras, imagens e música. Sendo assim, o poema está mais relacionado à estrutura, já a poesia diz mais respeito à essência. Podemos dizer que todo poema contém poesia, mas nem toda poesia toma a forma de um poema. Agora que você já sabe a diferença entre essas palavras de uma forma mais básica, entenda a fundo as singularidades e características de cada uma dessas categorias a seguir. O que é poema? O poema é uma forma de literatura definida por sua estrutura em versos e estrofes, sendo o oposto da prosa. Em sua essência, é uma obra de arte verbal, que utiliza a linguagem de maneira ornamental, rítmica e simbólica. Normalmente, possuem rima e variam em grau de estruturação, indo de mais livres, como os de Carlos Drummond de Andrade, a mais estruturados, como os de Olavo Bilac. São os poemas que compõem o gênero literário da poesia. Características do poema O poema é uma forma de expressão literária bastante diversa. Tanta diversidade não impede, porém, que se apresentem algumas características comuns nesses textos, que o diferenciam como gênero e tipo de escrita: Versos Os versos são as linhas do poema, sua unidade básica. São classificados de acordo com seu número de sílabas poéticas, indo desde 1 (monossílabo) a 12 (dodecassílabo ou alexandrino). Versos com mais de 12 sílabas poéticas levam o nome de bárbaros. Além disso, também variam de acordo com sua estrutura: versos regulares, que são rimados e têm a mesma medida métrica; versos brancos, que têm mesma medida métrica, mas sem rimas; e versos livres, que não possuem métrica ou rima. Estrofes As estrofes são o conjunto de versos. São categorizadas pela quantidade de versos que possuem, indo de um monóstico (1 verso) a uma décima (10 versos). Estrofes com mais de 10 versos são chamadas de irregulares. Um poema pode conter uma única estrofe ou várias, a depender da estrutura escolhida pelo autor. Também podem ser categorizados de acordo com a métrica dos versos que a compõem, sendo que estrofes simples possuem versos com a mesma medida; estrofes compostas, versos de medidas diferentes; e estrofes livres, versos sem métrica. Métrica e ritmo A métrica refere-se à contagem de sílabas poéticas em cada verso, levando em conta mais a fonética do que a gramática. A contagem se dá até a última sílaba tônica de cada verso e, em alguns casos, une vogais em uma só sílaba, como fazemos na fala. Através da contagem e regragem dessas sílabas poéticas, cria-se cadência e musicalidade consistentes para o texto. Apesar disso, não é um requisito obrigatório, sendo que muitos dos grandes poetas brasileiros não metrificam seus textos, mas conseguem ritmo de outras maneiras. Rimas A rima é a repetição de sons semelhantes no final dos versos, criando uma sonoridade harmoniosa, agradável e musical à leitura. Podem ser classificadas entre rimas perfeitas, em que há total correspondência das sílabas e sons; ou imperfeitas, em que apenas sons de vogais ou consoantes são repetidas. Também variam de acordo com sua organização nas estrofes, como rimas emparelhadas (AABB), rimas alternadas (ABAB) ou rimas cruzadas (ABBA); e ainda pela classe gramatical das palavras, sendo uma rima rica aquela entre palavras de classes gramaticais diferentes, e uma rima pobre aquela entre palavras de mesma classe gramatical. Assim como a métrica, não são obrigatórias. Figuras de linguagem O uso de figuras de linguagem é outra característica marcante do poema. As metáforas, metonímias, aliterações, paradoxos, ironias e outras figuras enriquecem o texto poético, dando-lhe múltiplas camadas de significado e beleza. Elas permitem que o autor vá além do literal das palavras, criando imagens, sensações e emoções mais profundas e complexas. Grande parte do valor estético e lírico dos poemas está nessas figuras. Exemplos de poema Existem muitos tipos de poemas, com diferentes estruturas, temas e escolas literárias. Alguns dos mais populares são os poemas de amor, por exemplo, que encantam e apaixonam com seus versos. Uma dos principais meios de classificação de poemas, entretanto, é sua forma, que pode ser fixa (soneto, haicai, trova, balada etc) ou livre. Confira um exemplo de cada: Poema de forma fixa Exemplo de soneto, poema de forma fixa composto por 14 versos divididos em dois quartetos e dois tercetos, de Vinicius de Moraes: Soneto de separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. Poema livre Exemplo de poema de forma livre, sem estrutura ou métrica

20 poemas de amor curtos para se apaixonar

Se apaixone com 20 poemas de amor

O amor é um tema adorado por escritores, sendo que diversas obras dos mais diferentes gêneros focam nesse sentimento. Porém, existe uma categoria que é especialmente apaixonada: os poetas. De versos selecionados de grandes escritores a pequenas poesias encantadoras, confira aqui uma lista com 20 poemas curtos sobre amor para você se apaixonar. Declare-se àquela pessoa especial ou se inspire e escreva suas próprias poesias de amor! Fique com a gente e sinta a paixão no ar… 1 – Amar é um elo, de Paulo Leminski amar é um eloentre o azule o amarelo O curitibano Paulo Leminski (1944-1989) foi um dos maiores poetas contemporâneos, grande nome da poesia marginal e de vanguarda. Sua poesia é conhecida pelos jogos com palavras, irreverência e tamanho diminuto, inspirada nos haicais japoneses Nesse curto poema, típico de Leminski, o autor apresenta a união de duas cores completamente diferentes, unidas pelo amor apesar das diferenças. Indo um pouco além na interpretação, pode-se inferir a criação de uma cor completamente nova a partir dessa conexão. 2 – Trecho de O tempo passa? Não passa, de Carlos Drummond de Andrade O meu tempo e o teu, amada,transcendem qualquer medida.Além do amor, não há nada,amar é o sumo da vida. Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é um dos maiores nomes da poesia brasileira. Conhecido por seus versos livres, foi um dos mais importantes modernistas no Brasil, sendo considerado um dos poetas mais influentes do país. Nesse trecho do poema O tempo passa? Não passa, ele aborda a sensação de plenitude que o amor causa, elevando-se acima do próprio tempo. Para o eu-lírico, amar é a parte mais sublime do viver. 3 – Bilhete, de Mario Quintana Se tu me amas, ama-me baixinhoNão o grites de cima dos telhadosDeixa em paz os passarinhosDeixa em paz a mim!Se me queres,enfim,tem de ser bem devagarinho, Amada,que a vida é breve, e o amor mais breve ainda… Mario Quintana (1906-1994) foi um dos grandes poetas contemporâneos, conhecido como o poeta das coisas simples. Seu estilo é marcado pela simplicidade, delicadeza e lirismo, abordando o cotidiano e temas como o amor, a infância e a natureza. Em Bilhete, o eu-lírico expressa seu desejo por um amor mais tranquilo, pacífico. Permeado pela inocência dos bilhetinhos de amor, é um pedido para que a paixão, efêmera, seja mais vagarosamente aproveitada. 4 – Trecho de O amor é uma companhia, de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) O amor é uma companhia.Já não sei andar só pelos caminhos,Porque já não posso andar só. Alberto Caeiro é um dos muitos heterônimos de Fernando Pessoa, conhecido por abordar temas bucólicos, do campo, valorizando a natureza e a simplicidade. Sob esse nome, Pessoa escrevia poemas mais diretos, simples e com foco nas sensações (sensacionismo). Nesse trecho, começo do poema O amor é uma companhia, o eu-lírico descreve o sentimento como uma presença constante em sua vida. Ele aborda o companheirismo que vem com o amor e não só como o deseja, mas como é incapaz de viver sem ele. 5 – Soneto do amor total, de Vinicius de Moraes Amo-te tanto, meu amor… não canteO humano coração com mais verdade…Amo-te como amigo e como amanteNuma sempre diversa realidade Amo-te afim, de um calmo amor prestante,E te amo além, presente na saudade.Amo-te, enfim, com grande liberdadeDentro da eternidade e a cada instante. Amo-te como um bicho, simplesmente,De um amor sem mistério e sem virtudeCom um desejo maciço e permanente. E de te amar assim muito e amiúde,É que um dia em ter corpo de repenteHei de morrer de amar mais do que pude. Vinicius de Moraes, renomado lirista e músico, também ficou conhecido por escrever lindas poesias. Apelidado como o poetinha, seus versos são cheios de lirismo e musicalidade, sendo o amor um de seus temas preferidos. Nesse soneto, o eu-lírico apresenta todos os modos que ama, englobando uma completude em seu sentimento, ao mesmo tempo simples e cheio de nuances. Seu amor é tão diverso, abundante e entregue, que ele diz que um dia o próprio corpo não o aguentará, morrendo de amores. 6 – Um jeito, de Adélia Prado Meu amor é assim, sem nenhum pudor.Quando aperta eu grito da janela— ouve quem estiver passando —ô fulano, vem depressa.Tem urgência, medo de encanto quebrado,é duro como osso duro.Ideal eu tenho de amar como quem diz coisas:quero é dormir com você, alisar seu cabelo,espremer de suas costas as montanhas pequenininhasde matéria branca. Por hora dou é grito e susto.Pouca gente gosta. Adélia Prado (1935-) é um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, considerada uma das maiores poetas vivas do Brasil. É conhecida por seu estilo único, explorando o cotidiano de maneira sensível, simples e direta. Aborda temas do feminino, da fé, da morte e do desejo. Nesse poema, Adélia explica como é seu jeito de amar, sem pudores, urgente e sem se importar com quem ouve suas declamações. Ao mesmo tempo, descreve um amor mais calmo, cheio de pequenas ações cotidianas de carinho e intimidade. 7 – Convosco, de Luis Cernuda  Minha terra?minha terra é você Minha gente?minha gente é você. Banimento e morte para mimestão onde você não está. E minha vida?Diga-me, minha vidao que é, se não você? O espanhol Luis Cernuda (1902-1963) foi um escritor e poeta, parte da Geração de 27 da Espanha. Vanguardista, acabou sendo exilado durante a Guerra Civil Espanhola. Abordava temas de amor, solidão, desejo e nostalgia. No poema acima, ele declara toda sua afeição pela pessoa amada, afirmando que ela é seu tudo. Com um jogo de palavras ao final, utiliza o termo carinhoso “vida” para afirmar que seu amor é, de fato, sua vida. 8 – Meu destino, de Cora Coralina Nas palmas de tuas mãosleio as linhas da minha vida.Linhas cruzadas, sinuosas,interferindo no teu destino.Não te procurei, não me procurastes –íamos sozinhos por estradas diferentes.Indiferentes, cruzamosPassavas com o fardo da vida…Corri ao teu encontro.Sorri. Falamos.Esse dia foi marcadocom a pedra brancada cabeça de um peixe.E, desde então, caminhamosjuntos pela vida… Ana Lins dos Guimarães Peixoto, mais conhecida como

30 poetas brasileiros de leitura indispensável

30 poetas brasileiros

A poesia brasileira é rica, múltipla e expansiva, contando com séculos de produção. Representando diversas escolas literárias, contextos históricos e ideais artísticos, são muitos os artistas que mergulharam na escrita de versos e estrofes. Entre milhares de escritores, porém, alguns se destacam, tornando-se aclamados por leitores e críticos. São autores que ficaram conhecidos por suas obras não só no Brasil, como no mundo. Do barroco ao contemporâneo, selecionamos 30 dos poetas brasileiros mais icônicos e marcantes, que são de leitura indispensável. Fique com a gente e confira! 1 – Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) Nascido em Itabira, Minas Gerais, Carlos Drummond de Andrade é o poeta mais influente da literatura brasileira, sendo uma figura central da segunda fase modernista no Brasil. Além de dominar a arte de escrever poesia, também foi autor de crônicas e contos. Entre suas obras mais conhecidas estão Alguma Poesia (1930) e A Rosa do Povo (1945). Seu estilo é conhecido pelo verso livre, que rompe com as formas tradicionais. O cotidiano se apresenta tanto na linguagem coloquial de seus poemas quanto nos temas abordados. A poesia de Drummond se utiliza da ironia e do humor e é marcada pela metalinguagem. Em seus versos, traz reflexões profundas sobre temas universais, como o amor e a solidão, mas também sobre a sociedade brasileira da época, com críticas sociopolíticas.  No meio do caminho No meio do caminho tinha uma pedratinha uma pedra no meio do caminhotinha uma pedrano meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimentona vida de minhas retinas tão fatigadas.Nunca me esquecerei que no meio do caminhotinha uma pedratinha uma pedra no meio do caminhono meio do caminho tinha uma pedra. 2 – Vinicius de Moraes (1913-1980) Vinicius de Moraes foi um poeta, cantor, compositor e diplomata carioca, amplamente reconhecido como um dos fundadores da Bossa Nova. Conhecido como o poetinha, estreou na poesia com O Caminho para a Distância (1993). Ficou conhecido pelo lirismo e temática da paixão em sua poesia, que combina a sensualidade com uma profundidade emocional intensa. Seus versos são impregnados de musicalidade e ritmo. Embora seja conhecido principalmente por seus sonetos de amor, também fazia denúncias a problemas sociais e políticos em suas obras. Além disso, desenvolveu diversos poemas infantis em seu livro A Arca de Noé (1970), que conta com o famoso poema A Casa, sobre uma casa muito engraçada, sem teto, sem nada… Soneto de fidelidade De tudo ao meu amor serei atentoAntes, e com tal zelo, e sempre, e tantoQue mesmo em face do maior encantoDele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momentoE em seu louvor hei de espalhar meu cantoE rir meu riso e derramar meu prantoAo seu pesar ou seu contentamento E assim, quando mais tarde me procureQuem sabe a morte, angústia de quem viveQuem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor (que tive):Que não seja imortal, posto que é chamaMas que seja infinito enquanto dure. 3 – Manuel Bandeira (1886-1968) Manuel Bandeira foi um poeta, crítico literário e tradutor, sendo um dos grandes escritores brasileiros. Nascido no Recife, Pernambuco, foi um dos principais nomes da primeira fase modernista no Brasil, apesar de sua origem no parnasianismo.  Seu poema Os Sapos foi lido na Semana de Arte Moderna de 22, tornando-o um dos fundadores do movimento, que promoveu uma ruptura com a poesia tradicional. Tem uma obra extensa, que aborda o cotidiano, com caráter simples e direto. Retrata em suas poesias a melancolia, a angústia e a morte, baseando-se nos próprios problemas de saúde que enfrentava. Porém, também trazia humor e ironia, principalmente em seus poemas-piada. Pneumotórax Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.A vida inteira que podia ter sido e que não foi.Tosse, tosse, tosse. Mandou chamar o médico:— Diga trinta e três.— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…— Respire. — O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. 4 – Cecília Meireles (1901-1964) Professora, jornalista e pintora, Cecília Meireles foi uma das maiores poetas brasileiras. Nascida no Rio de Janeiro, sua obra é vasta e abrange poesia, prosa e literatura infantil. Entre suas principais obras estão Viagem (1939) e Romanceiro da Inconfidência (1953). É conhecida por seu estilo neossimbolista, íntimo e psicológico, abordando temas como a solidão, a identidade, a passagem do tempo e a saudade, além de questões sociais. Suas obras infantis, em contrapartida, são poemas leves e musicados, cheios de jogos de palavras. Utiliza tanto versos livres, sem métrica ou rima, quanto versos regulares, metrificados e rimados, em suas poesias. A espiritualidade e o sentimento de transitoriedade também são temas recorrentes em sua obra, que tem um tom melancólico e contemplativo. Motivo Eu canto porque o instante existee a minha vida está completa.Não sou alegre nem sou triste:sou poeta. Irmão das coisas fugidias,não sinto gozo nem tormento.Atravesso noites e diasno vento. Se desmorono ou se edifico,se permaneço ou me desfaço,— não sei, não sei. Não sei se ficoou passo. Sei que canto. E a canção é tudo.Tem sangue eterno a asa ritmada.E um dia sei que estarei mudo:— mais nada. 5 – Adélia Prado (1935-) Um dos maiores nomes entre os escritores de literatura contemporânea brasileira, Adélia Prado é uma professora e poeta renomada, nascida em Divinópolis, Minas Gerais, onde reside até hoje. Além de poemas, também escreveu romances e contos. Sua carreira literária começou apenas aos 40 anos, com a publicação de Bagagem (1976), que teve o apoio de Carlos Drummond de Andrade e chamou a atenção da crítica. É conhecida por explorar o cotidiano em suas poesias, focando em temas da fé, do feminino, da morte e do desejo. Caracterizada por uma linguagem simples, coloquial e direta, captura as nuances da vida doméstica ao mesmo tempo em que aborda questões filosóficas e existenciais. Com sua sensibilidade singular, explora a vida em suas pequenas e grandes dimensões. Com licença poética Quando nasci

Como escrever poesia: 15 dicas para criar versos impactantes

Como escrever poesia? 15 dicas para começar

Que a escrita é uma arte, não há dúvidas. “Livros são papéis pintados com tinta”, como disse Fernando Pessoa. E uma das formas mais artísticas de trabalhar a palavra sem dúvida é a poesia. Esse tipo de escrita pode parecer intimidador à primeira vista. Poetas estão envolvidos em certo misticismo, sendo imaginados como figuras hiper intelectuais, muitas vezes até mesmo enfadonhas. Essa percepção infelizmente afasta muitos autores desse gênero literário. A verdade é que qualquer um pode escrever poemas. Se você alguma vez já teve o desejo de explorar versos poéticos, esse é o artigo para você! Confira 15 dicas para ajudar você a acessar seu poeta interior e começar a escrever. Fique com a gente e confira! Como escrever poesia 1. Leia muito, de tudo Todo grande autor é, primeiro, um grande leitor. É preciso admirar e ter um gosto genuíno pela leitura para poder desenvolver sua própria escrita. É importante ler de tudo, mas leia principalmente obras do gênero literário que quer escrever. Se familiarize com grandes poetas de diferentes estilos, como Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, Olavo Bilac, Paulo Leminski, Conceição Evaristo, Ferreira Gullar, Vinicius de Moraes, entre outros. Encontre o que mais lhe encanta e tente desvendar por quê. Encare a leitura não só como um prazer, mas como um estudo. Ao ler, você absorve diferentes técnicas, vocabulários e estilos. Preste atenção à forma como esses poetas estruturam seus poemas, utilizam figuras de linguagem e transmitem emoções e imagens. Atenção: as leituras devem servir como uma fonte de inspiração, não de plágio. Observe as particularidades de cada autor para construir seu próprio estilo de escrita. Poemas são altamente pessoais, por isso, explore sua própria subjetividade e não copie. 2. Escolha um tema Ter um tema é essencial para direcionar a escrita de seu texto. O que você quer dizer com a sua poesia? Que questões quer levantar? Quer fazer refletir, chorar, rir, zangar, arrepiar, relembrar, comover? Seu tema pode ser mais abrangente e universal, como o amor, a existência, a morte e o luto, ou mais específico, como um acontecimento banal, uma lembrança particular ou até mesmo uma sensação. O importante é que seja algo que desperte seu interesse e vontade de escrever. Além disso, você deve pensar em como abordar o tema de maneira única e pessoal, trazendo sua própria perspectiva e experiências para a escrita. As chances de seu poema ser o único sobre esse assunto é ínfima, portanto, o seu diferencial é a forma como o enxerga e expressa. A escolha de um assunto específico permite que você mantenha o foco e a coesão. Também facilita na hora de começar a escrever, visto que já vai saber o que deseja abordar em seus versos. 3. Conheça a estrutura de um poema A estrutura é a principal diferença entre um texto poético e um texto em prosa. A escrita em versos é o que define um poema. Entenda o básico sobre versos e estrofes, tanto para poder aplicar essa estrutura como para brincar com ela. Há algumas divisões de acordo com o número de estrofes, rimas, versos e sílabas poéticas. Sonetos, haicais, versos livres, odes e trovas são exemplos de estruturas poéticas conhecidas. Cada uma tem suas convenções e normas, servindo melhor para alguns propósitos. Um soneto pode ser ideal para explorar um tema romântico de um modo mais rebuscado, por exemplo, enquanto o verso livre oferece maior flexibilidade. Experimente com essas estruturas, utilizando-as para passar sua mensagem e suscitar as emoções que deseja no leitor.  Para ajudar você a visualizar, aqui está a estrutura de um soneto, de um haicai e de um poema com versos livres. Perceba como cada autor trabalha ritmo, estilo e tom nessas estruturas, mesmo quando o tema é o mesmo: amor. 3.1 Soneto Poema de 14 versos, usualmente decassílabos ou alexandrinos, divididos em 4 estrofes, iniciando com dois quartetos (estrofes de 4 versos) e terminando com dois tercetos (estrofes de 3 versos). Amor é fogo que arde sem se ver Amor é fogo que arde sem se ver;É ferida que dói e não se sente;É um contentamento descontente;É dor que desatina sem doer;   É um não querer mais que bem querer;É solitário andar por entre a gente;É nunca contentar-se de contente;É cuidar que se ganha em se perder;   É querer estar preso por vontade;É servir a quem vence, o vencedor;É ter com quem nos mata lealdade.   Mas como causar pode seu favorNos corações humanos amizade,Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Luís de Camões 3.2 Haicai Uma estrofe de 3 versos, sendo o primeiro uma redondilha menor (5 sílabas poéticas), o segundo uma redondilha maior (7 sílabas poéticas) e o terceiro novamente uma redondilha menor. RomanceE cruzam-se as linhasno fino tear do destino.Tuas mãos nas minhas. Guilherme de Almeida 3.3 Verso livre Sem métrica, estrutura livre, sem contar número de versos, estrofes ou sílabas poéticas. Amor violeta O amor me fere é debaixo do braço,de um vão entre as costelas.Atinge meu coração é por esta via inclinada.Eu ponho o amor no pilão com cinzae grão de roxo e soco. Macero ele,faço dele cataplasmae ponho sobre a ferida. Adélia Prado 4. Comece a escrever Não espere pela inspiração perfeita. Comece a escrever, mesmo que seja apenas um esboço ou algumas linhas soltas. Afinal, toda grande poesia um dia já foi um mero rascunho. Deixe suas ideias fluírem livremente no início e depois volte para revisá-las e refiná-las. Não se preocupe com a perfeição neste primeiro momento. O importante é vencer o medo e receio inicial e começar a jogar suas ideias no papel. À medida em que você vai colocando sua escrita criativa em prática, desenvolver essas ideias de um modo lírico ficará cada vez mais fácil. Escrever regularmente é crucial para evoluir em suas habilidades poéticas. A partir dos seus primeiros esboços, você vai percebendo como gosta de expressar seus pensamentos e sentimentos na forma de versos. Assim, você vai desenvolvendo um estilo próprio, identificando suas particularidades e trabalhando sobre elas.

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