O mercado editorial está testemunhando uma ascensão meteórica que parece ter vindo diretamente de um feitiço bem conjurado. Se você costuma frequentar redes sociais como o TikTok ou o Instagram, certamente já se deparou com capas deslumbrantes, mapas detalhados e discussões fervorosas sobre “parceiros de alma” e “sistemas de magia”. Estamos falando de Romantasia, o subgénero que funde o romance e a fantasia de forma indissociável e que se tornou o queridinho da nova geração de leitores.
Mas o que define exatamente este fenómeno e por que razão conseguiu o que muitos géneros tentaram e falharam: unir públicos tão distintos com tanta força? A resposta não está apenas na superfície das tramas, mas na forma como a Romantasia trabalha as emoções humanas dentro de cenários onde o impossível acontece a cada página. Este equilíbrio entre o desenvolvimento de sentimentos profundos e a construção de mundos épicos é o que mantém os leitores presos até à última página.
Definindo a Romantasia: Onde o Coração Encontra a Magia
A Romantasia não é apenas uma fantasia com um “toque” de romance, nem um romance que acontece num mundo mágico. Ela é um híbrido onde a trama de amor e o worldbuilding (construção de mundo) possuem o mesmo peso narrativo. Se retirar o romance, a história desmorona; se retirar a magia, o conflito perde o sentido e a motivação dos protagonistas desaparece.
A Anatomia do Género
Para entender a Romantasia, precisamos olhar para as suas bases. Ela herda a estrutura emocional e os tropos (clichês narrativos amados) do género romântico tradicional. Se você quer entender as raízes deste pilar, confira o nosso artigo Romance: um guia completo sobre o género!.
Na Romantasia, estes tropos ganham uma escala épica. O “inimigos para amantes” (enemies to lovers) não é apenas uma discussão acesa no escritório; é uma guerra milenar entre reinos rivais onde os protagonistas detêm o poder de destruir um ao outro com poderes ancestrais. A tensão sexual e emocional é amplificada pelo perigo de morte iminente e pelas apostas altas de um mundo em conflito.
A Diferença entre Fantasia Romântica e Romantasia
Muitas vezes confundida com a fantasia romântica clássica, a Romantasia moderna foca muito mais na tensão, na química e, por vezes, na sensualidade entre os personagens. Enquanto na fantasia clássica o romance pode ser uma subtrama secundária que serve apenas para humanizar o herói (como vemos em muitas obras épicas tradicionais), na Romantasia ele é o motor que move a política, as alianças, as traições e as profecias do mundo fantástico. Aqui, o destino do mundo e o destino do casal estão intrinsecamente ligados.
Tropos e Elementos que os Leitores Adoram
O que faz um leitor de Romantasia passar a noite em claro? Existem elementos específicos que se tornaram marcas registadas e que garantem o sucesso das obras junto do grande público.
O Poder dos Tropos Narrativos
- Enemies to Lovers (De Inimigos a Amantes): O tropo supremo da Romantasia. A tensão de dois personagens que deveriam se odiar por questões políticas ou de sangue, mas que são forçados a colaborar, criando uma química explosiva.
- Parceiros de Alma (Fated Mates): A ideia de que o destino ou a própria magia já escolheu quem é a sua metade. Isso adiciona uma camada espiritual e inevitável ao relacionamento, muitas vezes gerando conflitos quando um dos personagens tenta lutar contra esse laço.
- Só Há Uma Cama: Um clássico que, no contexto da fantasia — como numa estalagem mágica durante uma tempestade de neve — ganha contornos muito mais divertidos e tensos.
- O Escolhido com uma Reviravolta: Geralmente a protagonista descobre um poder oculto que a coloca no centro de um conflito maior, onde o interesse amoroso muitas vezes é o seu mentor ou, em reviravoltas chocantes, o seu maior obstáculo.
Worldbuilding Sensorial e Atmosférico
Diferente da alta fantasia técnica, que por vezes se perde em descrições geográficas exaustivas, a Romantasia foca num mundo que se pode “sentir”. O foco está nas cortes luxuosas, nos bailes de máscaras perigosos onde identidades são escondidas, no clima místico das florestas proibidas e na sensação física da magia a correr pelas veias. É uma construção de mundo que prioriza a atmosfera, as cores e as sensações, tornando a experiência de leitura altamente imersiva.
A Evolução do Género: Do Suburbano ao Épico
A Romantasia não nasceu do nada. Ela é a evolução de décadas de literatura que tentou misturar estes elementos. Nos anos 2000, vimos o auge da Fantasia Urbana Romântica (como a saga Crepúsculo ou Diários do Vampiro), onde o sobrenatural invadia o nosso mundo moderno.
Hoje, a tendência inverteu-se. Os leitores querem “High Fantasy”: mundos totalmente novos, com as suas próprias religiões, mapas, sistemas de castas e regras mágicas. Esta mudança reflete um desejo por uma imersão total, onde o autor tem liberdade absoluta para criar obstáculos que não existiriam na nossa realidade, como maldições que duram séculos ou barreiras mágicas intransponíveis.
O Mercado Editorial e a Oportunidade para Novos Autores
Se é um escritor ou aspirante a autor, a Romantasia é atualmente um dos campos mais férteis e lucrativos para publicação. As editoras estão em busca constante por novas vozes que saibam equilibrar a paixão com a aventura épica.
Como Iniciar a Sua Própria Saga
Escrever Romantasia exige um planejamento meticuloso. Precisa de criar um sistema de magia que seja coerente e interessante, mas que não eclipse a jornada emocional dos seus protagonistas. O segredo está em interligar os conflitos: o problema mágico deve ser resolvido através de um crescimento emocional do casal. Se sente que tem uma história deste tipo dentro de si, mas não sabe por onde começar a estruturar o seu manuscrito, veja o nosso guia Como Escrever um Livro do Zero e Publicar Sua História: Guia Completo.
O Perfil do Público e a Fidelização
O público da Romantasia é extremamente fiel e engajado. Eles não apenas leem; eles compram edições especiais, participam em clubes de leitura fervorosos e divulgam as obras organicamente através de resenhas apaixonadas. Entender este comportamento — e saber comunicar com estas comunidades — é a chave para o sucesso de qualquer autor que deseje ingressar no género. O autor de Romantasia deve estar presente onde os leitores estão, partilhando inspirações e ouvindo o que os fãs desejam ver nas próximas tramas.
Subgéneros dentro da Romantasia: Para Todos os Gostos
Nem toda a Romantasia é igual. Com o crescimento do género, surgiram ramificações que ajudam o leitor a encontrar exatamente o que procura.
- Romantasia Cozy (Acolhedora): Foca em conflitos de menor escala, muitas vezes em cenários rurais ou pequenas vilas mágicas, onde o romance é doce e os perigos não ameaçam a existência do mundo.
- Romantasia Dark: Cruza-se com a Dark Fantasy, apresentando temas mais pesados, vilões que são interesses amorosos (moralmente cinzentos) e ambientes muito mais perigosos e violentos.
- Epic Romantasia: Grandes batalhas, profecias milenares e o destino de nações inteiras em jogo. É aqui que nomes como Sarah J. Maas e Rebecca Yarros dominam.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre Romantasia
- Romantasia é o mesmo que New Adult? Não exatamente. New Adult refere-se à faixa etária dos personagens (geralmente entre 18 e 25 anos) e a temas de amadurecimento e descoberta da identidade adulta. A Romantasia é um género temático que mistura romance e fantasia. No entanto, é verdade que a grande maioria das obras de Romantasia atuais são classificadas como New Adult devido à idade dos protagonistas e à intensidade das cenas.
- Posso escrever Romantasia sem cenas explícitas? Com certeza. O foco principal do género é a tensão emocional e a importância do romance para o desenrolar da trama fantástica. Existem diferentes níveis de “temperatura” (o famoso spice) que variam de autor para autor. Há um público enorme e crescente para Romantasias “limpas” ou focadas apenas na tensão romântica sem conteúdo explícito.
- A Romantasia é apenas para o público feminino? Embora a maioria do público atual seja feminino, o género tem atraído leitores de todos os géneros que apreciam uma boa história de fantasia com personagens bem desenvolvidos emocionalmente. A boa literatura não tem género!