Quando a magia desperta, a infância fica para trás

Sumário

Às vésperas de completar quinze anos, Richard acreditava levar uma vida comum na tranquila Vila da Montanha. Mas o desaparecimento de Madeleine, uma figura enigmática ligada ao seu avô, desencadeia uma revelação inesperada: a magia corre em suas veias. Assim começa uma jornada que atravessa mundos, desafia verdades e marca a transição entre a infância e a responsabilidade.
Em Gárgula, fantasia e autodescoberta caminham juntas. Ao lado do elfo Leonard e do excêntrico avô Charlie — um mago enferrujado que há anos não lança um feitiço —, Richard descobre que crescer também significa encarar medos, aceitar poderes e assumir responsabilidades.
Nesta entrevista, o autor compartilha as origens da história criada ainda na adolescência, as referências que moldaram o universo do livro e o significado de publicar, anos depois, uma obra nascida da imaginação de um garoto de 14 anos.

1. Para começar, poderia nos contar um pouco sobre você e sua jornada como autor?

Sou Rafael, neurologista, atualmente tenho 30 anos e resido no Paraná, na cidade de Ponta Grossa (PR). Sou natural de uma cidadezinha do interior do Paraná chamada Prudentópolis e, desde pequeno, eu fui muito imaginativo. Gostava de criar cenários, histórias e mundos próprios. Era facilmente inspirado com histórias mágicas e de heróis. O mais incrível é que comecei a escrever livros na sexta série, sem sequer ainda ser um leitor de livros assíduo – na época lia muitos gibis apenas. Era apaixonado pelas aulas de filosofia já nessa época e foi na 8ª série que passei a ler diversos gêneros literários – desde livros de fantasia e terror até mesmo livros de autoajuda.

2. O que o inspirou a escrever o livro?

Eu brincava muito com o meu primo neste mundo encantado que criamos no jardim da minha avó. Chamamos esse mundo de Gárgula – como o nome do livro. E eu tinha uma imensa vontade de colocá-lo no papel para o tornar eterno. Além disso, eu queria poder também jogar para algum lugar as minhas inquietações filosóficas (risos). Foi aos 14 anos – em cerca de 01 a 02 meses – que escrevi as 200 páginas. Até eu me surpreendo hoje.

3. Como a sua experiência pessoal se reflete nos temas abordados no livro?

O mais incrível é que hoje, com 30 anos, eu resolvi revisitar o livro nos últimos dois anos. Ter lido ele novamente agora me deixou muito claro como eu refleti várias vivências da minha adolescência – não só pelo mundo que tem relação com minhas brincadeiras com meu primo, mas também a fase de autodescoberta sobre sexualidade, sobre ter sofrido rejeição amorosa. E, lendo o livro, fica claro que a minha visão da realidade já não era muito otimista.

4. Pode nos contar um pouco sobre o processo criativo por trás deste livro?

Como mencionei acima, eu fui criando a história na minha mente e, em poucas semanas, coloquei no papel. Porém, vários pontos da história foram acontecendo durante o processo da escrita. Apoio muito isso: deixar a história te levar também. Deixar pontas soltas que vão fazendo sentido conforme você sente a história acontecer. É quase uma expressão inconsciente. Teve muito disso neste livro, lembro bem da sensação.

5. Quais foram suas principais referências criativas para escrever o livro?

Eu lia vários gêneros, como citei. Porém, fui além dos livros. Podemos ver elementos de alguns filmes clássicos como A Vila; a amizade dos personagens principais foi inspirada na amizade com meu primo e nos gibis da Turma da Mônica; os elementos de magia tiveram aspectos de Harry Potter e Nárnia; dei um toque de aventura com inspiração nos livros de Tolkien; o tom de mistério e o aspecto objetivo na escrita de Agatha Christie; questionamentos existenciais de Sócrates… Posso ir longe. Foram muitas referências.

6. Existe algum trecho do livro que você gostaria de citar?

Vou apenas citar que o prólogo e o epílogo abrem e fecham a história de uma maneira profunda. Esses foram os únicos que eu escrevi agora com 30 anos. Acredito que em vários trechos do livro podemos aprender lições, mas estes dois foram especiais e pensados com carinho para serem transformadores ao leitor.

7. Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao escrever o livro?

Acredito que, na época, eu estava muito focado em passar no vestibular de medicina – estava no ensino médio. Então acelerei muito o processo de escrita para conseguir terminar durante as férias.

8. Como você espera que seu livro impacte os leitores?

Gárgula tem tantas camadas, mas acho que posso trazer as duas principais. A primeira é sobre eu ter escrito com 14 anos e ter a coragem hoje de publicá-lo com poucas alterações – nunca é tarde para honrar seu passado e exibir o seu mundo da fantasia. A segunda é sobre a história em si – o livro simboliza essa transição de quando termina a infância tranquila e nos damos conta de que temos de começar a lutar para ajudar quem amamos, aceitando os nossos poderes e responsabilidades.

9. Existe uma mensagem principal que você deseja transmitir?

De um jeito objetivo e simplista: descubra a magia e a coragem que existem em você, e perceba que pode não resolver todos os problemas e nem evitar catastróficas consequências, mas ficará aliviado por ao menos ter tentado.

10. Há algum personagem ou história no livro que você considere particularmente significativo?

Acredito que a história do príncipe Philip seja muito chocante e simbolize o que uma vida de pobreza e um sentimento crônico de humilhação podem levar alguém a fazer coisas horrendas. E gostaria de citar a minha admiração pela coragem e humildade do personagem principal – quando reli, achei fantástico e admirável o personagem que eu criei.

11. Como você acredita que a Literatura pode contribuir para a vida dos leitores?

Literatura ou arte literária, a meu ver, nos leva a diversos mundos. Contribui para transmitir diversas interpretações da realidade e experiências. Para quem se deixa levar e aprender, é uma fonte rica de saber.

12. Além da literatura, quais são suas fontes de inspiração para escrever?

Talvez soe intenso demais, mas tudo é inspiração para mim. Natureza, olhar o céu, ouvir as histórias das pessoas e dos meus pacientes, as minhas memórias e vivências, meus estudos mais técnicos da neurologia e medicina do sono. Acredito nisso… Para olhos atentos, há inspiração em todos os lugares.

13. O que a literatura e a escrita significam para você?

São meu refúgio. Aliviam as minhas inquietações existenciais. É uma forma de sentir liberdade.

14. Quais são seus planos futuros como escritor? Há novos projetos em desenvolvimento?

Certamente não quero mais deixar de escrever – estou organizando ainda minha rotina de médico neurologista cheio de atribuições e de escritor. A verdade é que quero ser um eterno amador da escrita (lembrando do verdadeiro conceito de amador: aquele que faz por amor). Há novos projetos, sim. Estou fazendo o volume 2 de Gárgula, com novos aspectos e descobertas sobre os personagens. Além de novos mistérios e aventuras, estou tentando manter o estilo infantojuvenil da escrita, mas com certeza está bem mais maduro e profundo do que o primeiro livro. Quinze anos de abismo entre o primeiro não é pouco.

15. Que conselho você daria para alguém que está começando a escrever seu primeiro livro?

Não espere o dia certo chegar. Não espere achar que precisa estar mais pronto ou melhorar mais. O seu primeiro livro talvez seja aos 14 anos, ou aos 20, 30, 40… Não há idade certa. Você só vai se aperfeiçoar se tiver coragem para começar e para errar também. Comece, arrisque, exiba sua história sem se autossabotar e assim não precisa esperar quinze anos para publicar seu primeiro livro (hahaha).
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