Entre raízes e encantamentos: uma jornada sobre memória, natureza e identidade

Há histórias que não apenas se leem — elas se sentem, como o vento que atravessa a pele ou o cheiro da terra após a chuva. “Arê e a Montanha que Caminhava” é uma dessas narrativas. Ambientado às margens do Rio São Francisco, o livro nos conduz por um universo onde o real e o encantado se entrelaçam, revelando a força da ancestralidade, da memória e da conexão com a natureza. Acompanhamos Arê, um menino quilombola em processo de descoberta, em uma jornada que é, ao mesmo tempo, externa e profundamente interior. Entre encontros, silêncios e aprendizados, a história se transforma em um convite à escuta — da terra, das histórias e de si mesmo. Conversamos com o autor para entender mais sobre sua trajetória, inspirações e o processo de criação dessa obra que pulsa poesia e consciência. Para começar, poderia nos contar um pouco sobre você e sua jornada como autor? Sou escritor, ator, pesquisador de cultura e educador artístico. Minha trajetória sempre esteve ligada às artes e à reflexão sobre o ser humano. Ao longo dos anos transitei entre teatro, literatura, cinema e educação, buscando compreender como as histórias moldam nossa visão de mundo. Muito do meu impulso de escrever vem também das memórias da minha infância. Minha avó era uma grande contadora de histórias, uma verdadeira griô, dessas mulheres que carregam a memória viva das famílias e dos lugares. Cresci ouvindo suas narrativas, que misturavam realidade, imaginação, sabedoria e poesia.Também escrevo a partir da compreensão profunda do papel dessas mulheres que criam meninos, que sustentam a vida com força e delicadeza. Minha mãe, por exemplo, sempre me pareceu como a própria natureza: forte como a terra, resistente como as árvores e, ao mesmo tempo, doce como o mel das abelhas. Minha escrita nasce muito dessa memória afetiva e desse desejo de também falar à juventude. O que o inspirou a escrever o livro? A inspiração nasce do encontro entre memória, imaginação e observação do mundo. Muitas vezes uma imagem, uma sensação ou uma pergunta existencial se transforma em ponto de partida para a história. No caso deste livro, fui motivado pelo desejo de explorar temas humanos profundos — identidade, pertencimento, sonho e transformação. Como a sua experiência pessoal se reflete nos temas abordados no livro? Este é meu sexto livro, e com o tempo percebo que os escritores, de certa forma, estão sempre escrevendo o mesmo livro, revisitando temas essenciais que nos atravessam. No meu caso, essa escrita sempre retorna ao lugar da infância, às paisagens da memória, à relação com a natureza e à construção da consciência de mundo que temos hoje. Minha experiência pessoal atravessa essas histórias como um fio invisível: a infância, os afetos, os ensinamentos das gerações mais velhas e a percepção do mundo natural como algo profundamente ligado à nossa existência. Pode nos contar um pouco sobre o processo criativo por trás deste livro? Minha vontade era falar à juventude, mas sem cair no tom didático. Eu queria um livro apaixonado, poético e consciente. Para isso, delineei a fase de crescimento do personagem Arê, acompanhando sua passagem da infância para a adolescência. É nesse momento que surgem as descobertas: o despertar para o mundo, para os sentimentos, para a natureza e para a própria identidade. Arê é um garoto que carrega o cheiro da terra, da natureza, das raízes do lugar onde vive. Quais foram suas principais referências criativas para escrever o livro? O livro dialoga com imagens do realismo fantástico, muito inspirado na tradição latino-americana. Há um pouco da atmosfera de Gabriel García Márquez, a consciência social e humana de Jorge Amado, o perfume da linguagem de João Guimarães Rosa e a fabulação filosófica de Machado de Assis. Essas são algumas das minhas principais referências literárias. Existe algum trecho do livro que você gostaria de citar? “Arê olhava a montanha como quem escuta um segredo antigo. Diziam que ela caminhava. Talvez não fossem as pedras que se moviam, mas o tempo que passava devagar dentro da memória da terra.” Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao escrever o livro? Um dos desafios foi construir uma verdadeira trajetória do herói para Arê, acompanhando seu crescimento interior. Ao mesmo tempo, eu queria denunciar simbolicamente a ideia da montanha que caminha — que também pode representar as transformações do mundo — mas sem fazer uma denúncia gratuita. Meu desejo era criar um envolvimento apaixonado, consciente e amoroso com as pessoas, os animais e a natureza. A participação do João victor, jovem autista foi um aprendizado na construção das imagens, ele pensou os personagens como animais e fui lendo com ele, que muito dedicado fez algo lindo. Como você espera que seu livro impacte os leitores? Espero que o livro desperte emoção, reflexão e, principalmente, memórias. Que ele faça o leitor lembrar das suas próprias histórias, da infância, das pessoas que marcaram sua vida e da relação com a natureza. Existe uma mensagem principal que você deseja transmitir? Sim. Acredito profundamente que precisamos reencontrar um equilíbrio entre educação, cultura, memória e meio ambiente sustentável. Esses elementos não podem ser separados. Eles fazem parte de um mesmo projeto de vida e de sociedade. A juventude é esse pulmão. Há algum personagem ou história no livro que você considere particularmente significativo? Acredito que o personagem João Girassol seja uma espécie de alerta dentro da narrativa. Ele carrega certa loucura poética, uma sensibilidade para enxergar o belo nas coisas simples. Esse personagem também foi inspirado em um velho amigo artista plástico, L. Cid, que adorava contar histórias cheias de imaginação. Muitas vezes suas narrativas me fascinavam. Misturei essa inspiração com minhas próprias loucuras criativas. Como você acredita que a Literatura pode contribuir para a vida dos leitores? A literatura é uma forma de autonomia. Ela é um luxo ao alcance de todos, basta que se desenvolva a consciência de que ler e imaginar é também um ato de liberdade. A literatura abre portas interiores e amplia nossa capacidade de compreender o mundo. Além da literatura,