Entrevista exclusiva com o autor de Casa Moretti

Algumas histórias nascem do desejo de criar, outras da urgência de dizer algo sobre o mundo. Casa Moretti surge exatamente desse encontro entre imaginação, música e realidade social. Inspirado por grandes mestres da literatura policial e pelo próprio Brasil, o autor constrói uma narrativa marcada por códigos, investigação, tensão psicológica e crítica social. Nesta entrevista, ele fala sobre suas referências, seu processo criativo, os personagens que ganharam vida própria e como a literatura pode ser uma poderosa forma de enxergar, questionar e traduzir a sociedade em que vivemos. Para começar, poderia nos contar um pouco sobre você e sua jornada como autor? A minha jornada como autor se principiou muitos anos atrás. Sempre flertei com a ideia de elaborar e reproduzir. Havia, indubitavelmente, uma criatividade selvagem dentro de mim, eu apenas não sabia como libertá-la. A arte me acompanha desde os meus primórdios, seja por meio da música, do audiovisual ou da literatura. Eu sentia que aquele era o meu lugar de pertencimento. A virada de chave ocorreu quando realizei a primeira leitura de O Código Da Vinci, de Dan Brown, há quase duas décadas, que se tornou uma referência instantânea para mim. Ali nasceu a minha paixão por códigos, tramas rocambolescas, investigações intrincadas e um apurado faro detetivesco. Agatha Christie surgiu logo após e, assim como Brown, se tornou um porto seguro. Ensaios de reprodução do universo da literatura policial surgiram naquela época, mas eu não possuía bagagem ou maturidade suficientes para dar prosseguimento. Pouco a pouco, a chama bruxuleou. Os anos se passaram e, no início de 2024, a ideia para Casa Moretti surgiu como uma fagulha. Decidi, sem pestanejar, enfim passá-la para o papel. O que o inspirou a escrever o livro? Em primeiro lugar, uma música presente no álbum Hotel California, dos Eagles. Em segundo, a minha paixão ardente por histórias detetivescas. Em terceiro, mas não menos importante, o Brasil, com todas as suas belezas e tragédias. Como a sua experiência pessoal se reflete nos temas abordados no livro? Para mim, parecia quase inconcebível situar a trama de Casa Moretti em qualquer outro lugar do mundo que não fosse o meu próprio país. Quando falamos sobre o que conhecemos e vivenciamos, soamos honestos e adquirimos maior credibilidade. Também me parecia impossível colocar o Brasil no centro de uma trama policial sem abordar problemáticas pertinentes de nossa sociedade. Contar essa história higienizando a realidade do país seria o mesmo que elaborar um conto de fadas, algo que estava longe de ser o meu propósito. Usei como inspiração situações que vi e vivi ao longo dos anos e, principalmente, situações que ainda vejo diariamente. Pode nos contar um pouco sobre o processo criativo por trás deste livro? Foi um processo bastante orgânico. Definida a trama, os objetivos de cada personagem e suas respectivas personalidades, tudo fluiu de maneira extremamente natural. Embora a estrutura da história tenha sido planejada previamente, grande parte do desenrolar dos fatos surgiu durante a escrita, especialmente nas interações e nos diálogos. A música como pano de fundo foi essencial para ditar o tom de cada cena e aumentar a minha imersão naquele universo. Foi um processo cansativo, mas estimulante na maior parte do tempo. Quais foram suas principais referências criativas para escrever o livro? Dan Brown e Agatha Christie são, sem dúvidas, as minhas maiores referências. Foi através do trabalho de ambos que me apaixonei pelo gênero policial. A música também foi fundamental ao longo dessa jornada. Ela ajudou na ambientação e na definição da personalidade de cada personagem. Pretendo manter esse padrão, de formas diferentes, em meus próximos trabalhos. Existe algum trecho do livro que você gostaria de citar? “Os únicos espíritos pérfidos que vagam sobre a terra são os que habitam os corpos dos vivos.” Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao escrever o livro? Foco e disciplina. Nunca adotei um padrão regrado de escrita nem horários fixos. Tudo variava de acordo com meu humor e autoconfiança. Às vezes escrevia duas ou três horas por dia; em outros momentos, deixava a história de lado por alguns dias. Foi um processo temperamental. Os Moretti não eram pessoas fáceis de se lidar. Como você espera que seu livro impacte os leitores? Ficarei realizado se a mensagem de Casa Moretti gerar debate. Não tenho a pretensão de ser celebrado nem de reinventar a roda. Prefiro me enxergar como um porta-voz. Os personagens existem na vida real, ainda que ficcionalizados. Quando lhes dei voz, passaram a falar por si. Existe uma mensagem principal que você deseja transmitir? O fanatismo, o ódio e a intolerância na sociedade brasileira são cânceres que precisam ser expurgados. Há algum personagem ou história que você considere particularmente significativo? Sou completamente apaixonado por Bárbara Moretti, ela é a minha Monalisa. Tenho muito orgulho de tê-la colocado como protagonista. Também tenho apreço por praticamente todos os personagens, até mesmo os coadjuvantes. Como você acredita que a literatura pode contribuir para a vida dos leitores? A literatura expande a mente, amplia o olhar crítico e nos ajuda a entender o mundo e a nós mesmos. Ninguém termina um livro da mesma maneira que o começou. Além da literatura, quais são suas fontes de inspiração? O cotidiano, com tudo de positivo e negativo que ele carrega. O que a literatura e a escrita significam para você? São um espelho de quem eu sou. Cada personagem carrega um pedaço de mim, exceto aqueles que representam o lado doentio da sociedade, que funcionam como crítica e denúncia. Quais são seus planos futuros como escritor? Tenho um segundo manuscrito pronto, Playlist do Fim, que aborda autoaceitação e luto. Também trabalho nas continuações de Casa Moretti e em um novo suspense sobre vingança. Que conselho você daria para quem está começando a escrever? Nenhuma ideia é descartável. Deixe a imaginação fluir, mas nunca abra mão da sua verdade. Casa Moretti nasce, assim, do encontro entre inquietação artística, olhar crítico e paixão pelo suspense. Ao longo desta conversa, fica claro que o romance vai além de uma
A Metamorfose: O Guia Definitivo para Entender por que Você é o Inseto

Você já se sentiu um inseto no seu próprio quarto? “Ao despertar certa manhã de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” Com esta frase, uma das mais famosas e impactantes da literatura mundial, Franz Kafka nos joga, sem nenhuma explicação, no coração do absurdo. Não há prelúdio, não há causa. Apenas o fato, brutal e inexplicável. A Metamorfose, publicada em 1915, não é uma história sobre um homem que vira um inseto.É uma história sobre a alienação, a solidão e a desumanização que se escondem sob a superfície da nossa vida cotidiana. Kafka não escreveu uma fantasia; ele escreveu um diagnóstico.E o paciente, mais de um século depois, ainda somos nós. Este guia é uma jornada para dentro do casco de Gregor Samsa, para entender por que sua tragédia silenciosa ecoa tão profundamente em nosso mundo moderno. Ficha Técnica e Contexto Histórico Para entender a angústia claustrofóbica de A Metamorfose, é preciso entender o mundo de Franz Kafka: o Império Austro-Húngaro no início do século XX, um caldeirão de burocracia, tensões sociais e uma crescente sensação de impotência do indivíduo perante sistemas opressores. A obra é um reflexo da ansiedade de uma era e da vida pessoal do autor, marcada pela relação conturbada com o pai e por um sentimento de inadequação. Ficha Técnica Título Original: Die Verwandlung Autor: Franz Kafka Ano de Publicação: 1915 Gênero: Novela, Ficção Absurda, Modernismo Narrador:Terceira pessoa, limitado à perspectiva de Gregor Ambientação:Praga, em um apartamento da classe média baixa Contexto:Início do século XX, pré-Primeira Guerra Mundial A genialidade de Kafka está em narrar o evento mais fantástico com a linguagem mais banal e burocrática possível. O tom do narrador é frio, quase jornalístico, o que torna a situação de Gregor ainda mais perturbadora. O absurdo não está apenas na transformação, mas na normalidade com que todos, inclusive o próprio Gregor, tentam lidar com ela. Resumo Detalhado da Obra: A Desintegração de um Homem A novela é dividida em três partes, que marcam os estágios da desumanização de Gregor e da transformação de sua família. Parte 1: O Absurdo e a Preocupação com o Trabalho Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, acorda e percebe que seu corpo mudou.Ele agora tem um casco duro, múltiplas perninhas que se agitam descontroladamente e uma nova forma que o impede de sair da cama. Sua primeira reação não é de pânico ou desespero existencial.É de ansiedade prática. Ele está atrasado para o trabalho.Ele vai perder o trem.O que seu chefe vai pensar? A dívida de seus pais, que ele está pagando com seu emprego miserável, pesa em sua mente. A família — pai, mãe e a irmã, Grete — bate à porta, preocupada com o atraso.O gerente da firma onde ele trabalha chega para cobrar sua ausência. A pressão aumenta. Com um esforço hercúleo, Gregor consegue rolar para fora da cama e abrir a porta com a boca. A cena é de horror. O gerente foge apavorado.A mãe desmaia.E o pai, com uma expressão de fúria, o enxota de volta para o quarto com uma bengala e um jornal, como se espanta um animal. Parte 2: O Confinamento e a Perda da Humanidade Gregor agora está preso em seu quarto. Sua única conexão com o mundo é sua irmã, Grete, de 17 anos, que assume a tarefa de alimentá-lo. No início, ela o faz com uma mistura de compaixão e repulsa, tentando descobrir do que ele gosta de comer (agora, restos de comida estragada). Gregor, de seu canto escuro, observa a vida da família continuar sem ele.Ele ouve as conversas.Percebe as dificuldades financeiras. Ele, que era o provedor, agora é um fardo. Sua transformação física começa a afetar sua mente. Ele se sente mais à vontade na escuridão, sobe pelas paredes e pelo teto. Grete, percebendo isso, decide tirar os móveis do quarto para lhe dar mais espaço. A mãe, no entanto, se desespera com a ideia, vendo-a como o ato final de apagar a identidade humana de seu filho. Em um confronto, Gregor, tentando proteger um quadro na parede — sua última ligação com o passado —, assusta a mãe, que desmaia novamente. O pai chega e, em um acesso de raiva, atira maçãs em Gregor. Uma delas se aloja em suas costas, causando um ferimento grave que nunca cicatrizará. Parte 3: A Rejeição Final e a Morte Libertadora O ferimento da maçã debilita Gregor. A família, agora sobrecarregada com o trabalho e a falta de dinheiro, mal tem tempo ou paciência para ele. Contratam uma faxineira que não tem medo dele, tratando-o com uma indiferença cruel. Para conseguir mais dinheiro, a família aluga um dos quartos para três inquilinos, homens barbudos e sérios que exigem ordem e limpeza. Gregor é agora uma vergonha, um segredo sujo escondido no quarto dos fundos. O clímax da rejeição acontece em uma noite em que Grete toca violino para os inquilinos. Atraído pela música, Gregor, em um último impulso de se conectar com a beleza e com sua família, se arrasta para fora do quarto. Os inquilinos o veem e ficam horrorizados.Eles se recusam a pagar e ameaçam processar a família. É a gota d’água. Grete, a última a ter alguma compaixão por ele, explode.Ela se recusa a chamar “aquilo” de irmão e declara que eles precisam se livrar do monstro. Gregor, ouvindo tudo, entende. Ele se arrasta de volta para seu quarto, fraco e faminto. Naquela noite, pensando em sua família com uma estranha ternura, ele morre. Na manhã seguinte, a faxineira encontra seu corpo seco e o varre para fora. A reação da família não é de luto, mas de alívio. Eles se sentem livres de um peso enorme. O pai expulsa os inquilinos, e a família decide tirar o dia de folga. Eles pegam um trem para o campo, fazem planos para o futuro e observam Grete, que se tornou uma jovem bonita e cheia de vida. A morte do inseto é o renascimento da família.A metamorfose de Gregor permitiu a metamorfose deles.